Guia · Comunicação alternativa

Prancha de comunicação: o que é e como montar uma em casa

Publicado emPor AraLabs7 min de leitura

Uma prancha de comunicação é um quadro com figuras que a criança aponta ou toca para dizer o que quer, o que sente ou do que precisa. Para montar uma em casa, comece com poucas palavras úteis (como quero, mais, parar e ajuda), use você mesmo a prancha enquanto conversa com a criança e deixe-a sempre onde a conversa acontece. Ela é um recurso de comunicação aumentativa e alternativa (CAA) e funciona melhor junto com o acompanhamento de um fonoaudiólogo.

Este guia não é terapia. Ele reúne o básico para a família começar e conversar melhor com os profissionais. Quem avalia a criança e indica o sistema de comunicação mais adequado é o fonoaudiólogo, de preferência com experiência em CAA.

Nesta página · 8 seções

O que é comunicação aumentativa e alternativa (CAA)

A International Society for Augmentative and Alternative Communication (ISAAC) descreve a CAA como um conjunto de ferramentas e estratégias que a pessoa usa para resolver os desafios de comunicação do dia a dia. O nome tem duas partes: aumentativa quando complementa a fala que já existe, e alternativa quando ocupa o lugar dela.

Na prática, entram aí gestos, sinais, fotos, figuras, pranchas de papel e aplicativos que falam em voz alta. O que importa não é o formato, e sim que a mensagem chegue a quem está ouvindo. A CAA é usada por crianças autistas (TEA), com apraxia de fala, paralisia cerebral, deficiência intelectual e outras condições que dificultam a fala, de forma temporária ou permanente.

O que é uma prancha de comunicação

É uma grade de símbolos, cada um com a palavra escrita embaixo. A criança aponta, toca ou olha para os símbolos para formar uma mensagem: às vezes uma palavra só (“água”), às vezes uma frase curta (“eu quero mais”).

Existem pranchas gerais, para o dia todo, e pranchas temáticas, para um momento específico: refeição, banho, brincadeira, escola. Para quem está começando, uma prancha temática pequena, ligada a uma atividade que a criança gosta, costuma ser o caminho mais fácil.

Prancha impressa ou aplicativo?

As duas são CAA. A impressa é chamada de baixa tecnologia; o aplicativo, de alta tecnologia. Não é preciso passar por uma para chegar à outra: a escolha depende da criança e da orientação do fonoaudiólogo, e muitas famílias usam as duas.

Prancha impressa

  • Custa pouco, não descarrega e pode ir para a piscina ou para o banho.
  • Fica sempre à vista, colada na parede ou na geladeira.
  • Não tem voz: quem está perto precisa olhar e ler em voz alta o que a criança apontou.
  • Cada palavra nova pede imprimir e recortar de novo.

Aplicativo de CAA

  • Fala em voz alta, então a criança é ouvida mesmo por quem não está olhando.
  • Cabe muito mais vocabulário, com busca e frases montadas em sequência.
  • Depende de celular ou tablet carregado, por perto e protegido.
  • Precisa de um modo que impeça a criança de sair do app ou mexer nas configurações.

Como montar uma prancha de comunicação em casa

O passo a passo abaixo serve tanto para a prancha de papel quanto para organizar os primeiros cards de um aplicativo. Se a criança já tem fonoaudiólogo, leve a ideia para a sessão: o profissional pode ajustar o vocabulário e o tamanho dos símbolos.

  1. Observe o que a criança já tenta dizer. Ela puxa você até a geladeira? Empurra o prato? Leva o brinquedo para você abrir? Esses pedidos são o ponto de partida.
  2. Escolha poucas palavras. Misture palavras que servem em muitas situações (quero, mais, não, parar, ajuda, acabou) com duas ou três palavras específicas daquele momento (água, bola, banho). Algo entre 6 e 12 símbolos já é um bom começo.
  3. Escolha os símbolos. Pictogramas como os do ARASAAC funcionam bem para palavras de ação e de sentimento. Para objetos muito concretos, uma foto do copo ou do brinquedo da casa ajuda no começo.
  4. Monte e mantenha cada palavra no mesmo lugar. Escreva a palavra embaixo de cada figura e não troque a posição dos símbolos a cada versão. O lugar fixo ajuda a criança a encontrar a palavra sem procurar.
  5. Proteja e deixe à mão. Plastifique ou use plástico adesivo. Cole uma cópia onde a atividade acontece: a prancha da refeição na mesa, a do banho no azulejo.
  6. Use você primeiro (modelagem). Enquanto fala, aponte na prancha: “Você quer mais?”, “Acabou o banho”. A criança aprende a usar a prancha vendo os outros usarem, do mesmo jeito que aprende a falar ouvindo.
  7. Responda a toda tentativa. Se ela tocou em mais, dê mais. Não transforme a prancha em teste (“me mostra onde está a água”) nem condicione o que ela quer a apontar certo.
  8. Amplie aos poucos. Quando uma palavra já é usada com facilidade, acrescente outra. Anote o que funcionou para levar ao fonoaudiólogo.

Pictogramas ARASAAC: o que são e como usar

O ARASAAC (Centro Aragonés de la Comunicación Aumentativa y Alternativa) mantém uma biblioteca gratuita de pictogramas que é referência em CAA, com versões em vários idiomas, incluindo o português. Os pictogramas são de autoria de Sergio Palao e propriedade do Governo de Aragão (Espanha), e são distribuídos sob a licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0. Em termos simples, isso quer dizer:

  • Atribuição: o material precisa citar o autor, a origem e a licença.
  • Não comercial: dá para usar em casa, na escola e na terapia, mas não para vender a prancha ou um produto feito com os pictogramas.
  • Compartilhar igual: uma prancha feita com eles e distribuída para outras pessoas segue sob a mesma licença.

Uma forma de atribuição muito usada em materiais impressos é: “Autor dos pictogramas: Sergio Palao. Origem: ARASAAC (arasaac.org). Licença: CC BY-NC-SA. Propriedade: Governo de Aragão”. Confira sempre a versão atual nos termos de uso do ARASAAC, listados nas fontes.

Mitos comuns sobre CAA

“A prancha vai atrapalhar a fala”

É o medo mais comum, e as revisões de pesquisa não o confirmam. Uma revisão de 23 estudos publicada em 2006 no Journal of Speech, Language, and Hearing Research (Millar, Light e Schlosser) não encontrou queda na fala de pessoas com deficiências do desenvolvimento depois de intervenções com CAA, e encontrou ganhos de fala em parte dos casos. Em 2008, uma revisão focada em crianças com autismo (Schlosser e Wendt) chegou a uma conclusão parecida: a CAA não impediu a fala, e a maioria dos estudos relatou aumento, ainda que modesto.

Os próprios autores chamam a evidência de preliminar e pedem expectativas realistas: a CAA não é uma forma de “fazer a criança falar”, e sim de ela se comunicar agora, enquanto a fala se desenvolve no tempo dela.

“É só para quem não fala nada”

Não. A parte “aumentativa” do nome existe justamente para quem fala pouco ou de um jeito difícil de entender. A prancha complementa o que a criança já consegue dizer.

“A prancha substitui a terapia”

Também não. A prancha é uma ferramenta; a escolha do vocabulário, do formato e das estratégias depende de uma avaliação profissional. O que a família faz em casa, principalmente a modelagem, potencializa esse trabalho.

Quando um aplicativo ajuda

Se a família decidir usar um app junto com a prancha de papel, o Lumo, feito pela AraLabs, é uma opção gratuita, na App Store. Ele traz os 13.798 pictogramas ARASAAC com busca em quatro idiomas (PT-BR, PT-PT, EN-US e ES-ES), monta frases que o aparelho fala em voz alta e permite criar cards com fotos da casa. Também tem rotinas visuais e um modo criança que só sai com PIN.

Funciona offline e sem cadastro: os dados da criança ficam no aparelho. Como usa os mesmos pictogramas, dá para imprimir a prancha da refeição e ter os mesmos símbolos no tablet, sem a criança precisar aprender duas linguagens visuais.