Uma prancha de comunicação é um quadro com figuras que a criança aponta ou toca para dizer o que quer, o que sente ou do que precisa. Para montar uma em casa, comece com poucas palavras úteis (como quero, mais, parar e ajuda), use você mesmo a prancha enquanto conversa com a criança e deixe-a sempre onde a conversa acontece. Ela é um recurso de comunicação aumentativa e alternativa (CAA) e funciona melhor junto com o acompanhamento de um fonoaudiólogo.
Este guia não é terapia. Ele reúne o básico para a família começar e conversar melhor com os profissionais. Quem avalia a criança e indica o sistema de comunicação mais adequado é o fonoaudiólogo, de preferência com experiência em CAA.
O que é comunicação aumentativa e alternativa (CAA)
A International Society for Augmentative and Alternative Communication (ISAAC) descreve a CAA como um conjunto de ferramentas e estratégias que a pessoa usa para resolver os desafios de comunicação do dia a dia. O nome tem duas partes: aumentativa quando complementa a fala que já existe, e alternativa quando ocupa o lugar dela.
Na prática, entram aí gestos, sinais, fotos, figuras, pranchas de papel e aplicativos que falam em voz alta. O que importa não é o formato, e sim que a mensagem chegue a quem está ouvindo. A CAA é usada por crianças autistas (TEA), com apraxia de fala, paralisia cerebral, deficiência intelectual e outras condições que dificultam a fala, de forma temporária ou permanente.
O que é uma prancha de comunicação
É uma grade de símbolos, cada um com a palavra escrita embaixo. A criança aponta, toca ou olha para os símbolos para formar uma mensagem: às vezes uma palavra só (“água”), às vezes uma frase curta (“eu quero mais”).
Existem pranchas gerais, para o dia todo, e pranchas temáticas, para um momento específico: refeição, banho, brincadeira, escola. Para quem está começando, uma prancha temática pequena, ligada a uma atividade que a criança gosta, costuma ser o caminho mais fácil.
Prancha impressa ou aplicativo?
As duas são CAA. A impressa é chamada de baixa tecnologia; o aplicativo, de alta tecnologia. Não é preciso passar por uma para chegar à outra: a escolha depende da criança e da orientação do fonoaudiólogo, e muitas famílias usam as duas.
Prancha impressa
- Custa pouco, não descarrega e pode ir para a piscina ou para o banho.
- Fica sempre à vista, colada na parede ou na geladeira.
- Não tem voz: quem está perto precisa olhar e ler em voz alta o que a criança apontou.
- Cada palavra nova pede imprimir e recortar de novo.
Aplicativo de CAA
- Fala em voz alta, então a criança é ouvida mesmo por quem não está olhando.
- Cabe muito mais vocabulário, com busca e frases montadas em sequência.
- Depende de celular ou tablet carregado, por perto e protegido.
- Precisa de um modo que impeça a criança de sair do app ou mexer nas configurações.
Como montar uma prancha de comunicação em casa
O passo a passo abaixo serve tanto para a prancha de papel quanto para organizar os primeiros cards de um aplicativo. Se a criança já tem fonoaudiólogo, leve a ideia para a sessão: o profissional pode ajustar o vocabulário e o tamanho dos símbolos.
- Observe o que a criança já tenta dizer. Ela puxa você até a geladeira? Empurra o prato? Leva o brinquedo para você abrir? Esses pedidos são o ponto de partida.
- Escolha poucas palavras. Misture palavras que servem em muitas situações (quero, mais, não, parar, ajuda, acabou) com duas ou três palavras específicas daquele momento (água, bola, banho). Algo entre 6 e 12 símbolos já é um bom começo.
- Escolha os símbolos. Pictogramas como os do ARASAAC funcionam bem para palavras de ação e de sentimento. Para objetos muito concretos, uma foto do copo ou do brinquedo da casa ajuda no começo.
- Monte e mantenha cada palavra no mesmo lugar. Escreva a palavra embaixo de cada figura e não troque a posição dos símbolos a cada versão. O lugar fixo ajuda a criança a encontrar a palavra sem procurar.
- Proteja e deixe à mão. Plastifique ou use plástico adesivo. Cole uma cópia onde a atividade acontece: a prancha da refeição na mesa, a do banho no azulejo.
- Use você primeiro (modelagem). Enquanto fala, aponte na prancha: “Você quer mais?”, “Acabou o banho”. A criança aprende a usar a prancha vendo os outros usarem, do mesmo jeito que aprende a falar ouvindo.
- Responda a toda tentativa. Se ela tocou em mais, dê mais. Não transforme a prancha em teste (“me mostra onde está a água”) nem condicione o que ela quer a apontar certo.
- Amplie aos poucos. Quando uma palavra já é usada com facilidade, acrescente outra. Anote o que funcionou para levar ao fonoaudiólogo.
Pictogramas ARASAAC: o que são e como usar
O ARASAAC (Centro Aragonés de la Comunicación Aumentativa y Alternativa) mantém uma biblioteca gratuita de pictogramas que é referência em CAA, com versões em vários idiomas, incluindo o português. Os pictogramas são de autoria de Sergio Palao e propriedade do Governo de Aragão (Espanha), e são distribuídos sob a licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0. Em termos simples, isso quer dizer:
- Atribuição: o material precisa citar o autor, a origem e a licença.
- Não comercial: dá para usar em casa, na escola e na terapia, mas não para vender a prancha ou um produto feito com os pictogramas.
- Compartilhar igual: uma prancha feita com eles e distribuída para outras pessoas segue sob a mesma licença.
Uma forma de atribuição muito usada em materiais impressos é: “Autor dos pictogramas: Sergio Palao. Origem: ARASAAC (arasaac.org). Licença: CC BY-NC-SA. Propriedade: Governo de Aragão”. Confira sempre a versão atual nos termos de uso do ARASAAC, listados nas fontes.
Mitos comuns sobre CAA
“A prancha vai atrapalhar a fala”
É o medo mais comum, e as revisões de pesquisa não o confirmam. Uma revisão de 23 estudos publicada em 2006 no Journal of Speech, Language, and Hearing Research (Millar, Light e Schlosser) não encontrou queda na fala de pessoas com deficiências do desenvolvimento depois de intervenções com CAA, e encontrou ganhos de fala em parte dos casos. Em 2008, uma revisão focada em crianças com autismo (Schlosser e Wendt) chegou a uma conclusão parecida: a CAA não impediu a fala, e a maioria dos estudos relatou aumento, ainda que modesto.
Os próprios autores chamam a evidência de preliminar e pedem expectativas realistas: a CAA não é uma forma de “fazer a criança falar”, e sim de ela se comunicar agora, enquanto a fala se desenvolve no tempo dela.
“É só para quem não fala nada”
Não. A parte “aumentativa” do nome existe justamente para quem fala pouco ou de um jeito difícil de entender. A prancha complementa o que a criança já consegue dizer.
“A prancha substitui a terapia”
Também não. A prancha é uma ferramenta; a escolha do vocabulário, do formato e das estratégias depende de uma avaliação profissional. O que a família faz em casa, principalmente a modelagem, potencializa esse trabalho.
Quando um aplicativo ajuda
Se a família decidir usar um app junto com a prancha de papel, o Lumo, feito pela AraLabs, é uma opção gratuita, na App Store. Ele traz os 13.798 pictogramas ARASAAC com busca em quatro idiomas (PT-BR, PT-PT, EN-US e ES-ES), monta frases que o aparelho fala em voz alta e permite criar cards com fotos da casa. Também tem rotinas visuais e um modo criança que só sai com PIN.
Funciona offline e sem cadastro: os dados da criança ficam no aparelho. Como usa os mesmos pictogramas, dá para imprimir a prancha da refeição e ter os mesmos símbolos no tablet, sem a criança precisar aprender duas linguagens visuais.
Fontes
- ISAAC: About AAC (definição de CAA, em inglês)
- Millar, Light e Schlosser (2006). The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: a research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 49(2), 248–264
- Resumo da revisão de Millar, Light e Schlosser no ASHA Evidence Maps
- Schlosser e Wendt (2008). Effects of augmentative and alternative communication intervention on speech production in children with autism: a systematic review. American Journal of Speech-Language Pathology, 17(3), 212–230
- ARASAAC: termos de uso
- Creative Commons: licença CC BY-NC-SA 4.0 (em português)